Minha casa está vazia. E nem eu nem minha mãe aguentamos mais ficar aqui.
Tudo traz lembranças - o perfume com cheiro de bebê, as cores dos móveis, o computador dele desligado, as almofadas do sofá, o carro na garagem, os quadros nas paredes, o retrato enorme com a foto dele, as roupas guardadas, as caixas de remédios, o tapete da sala e até os celulares.
Mas, o que mais me impressiona é a capacidade de organização dele quando soube que morreria. Nem acredito ainda que não chorei no enterro e nem quando eu estava no necrotério. Também não chorei quando abri o saco em que estava o corpo dele.
Chorei no dia seguinte quando tudo aquilo acabou.
Ele sempre dizia: "Não se deixe levar pelos sentimentos. Jamais demonstre que está triste, as pessoas não precisam saber o que você sente".
Em parte ele até tinha razão.
Esses dias não têm sido fáceis para mim. Cada dia me sinto mais e mais triste. Cansada, iludida, decepcionada, excluída e sozinha.
A culpa não é das pessoas, talvez seja minha por ter deixado meu coração ficar doente.
Difícil é sentir na pele o que a alma sente dentro da gente. Quando diziam que depressão e tristeza profunda trazem doenças para o corpo físico eu não acreditava, até acontecer comigo. Quando choro muito e começo a ficar enjoada, já entendo que preciso parar.
Eu trocaria tudo o que eu tenho para ter uma família. Até pensei que fosse ter uma, mas talvez o destino não queira me presentear como eu gostaria. Eu tento dormir para tentar esquecer os problemas, mas sonho com eles.
Por estar misturando as coisas, sentindo a partida dele e triste por estar isolada, acabo magoando sem querer as pessoas que eu mais amo. Isso dói mais em mim do que nelas.
E ninguém imagina que eu também sinto dores.
quarta-feira, 24 de abril de 2013
Exclusão
Sabe quando você está no meio de uma multidão e ainda assim se sente sozinho?
Tem horas que me sinto assim.
Antes eu tinha amigos(as) da minha idade, que compartilhavam das mesmas experiências que eu. Passávamos pelas mesmas coisas, vivíamos as mesmas rotinas no dia-a-dia e tínhamos afinidade e o que conversar. Mas, depois que entrei na faculdade me senti muito mais isolada do que antes.
Todos com que eu convivo têm filhos, são casados e mais velhos que eu. Claro que eles conversam sobre o que vivem, sobre as crianças, sobre a casa, sobre a família, sobre seus netos... E eu me sinto deixada de lado. Não tenho culpa de não ser mãe, de não ter pai e de não ter uma vida igual a deles.
Além de estar odiando o curso, cada vez me sinto mais sozinha. Pelo menos não tive mais recaídas porque minha mãe voltou pra casa. Mesmo assim, me falta coragem de falar como me sinto porque não tem mais ninguém que me entenda. A maioria deles só me julga, sem procurar entender meus motivos. Por isso tenho me afastado cada dia mais dessas pessoas que se acham superiores só porque têm filhos eu não, porque têm marido e eu não, porque são mais velhas e eu não... enfim, não preciso que mais ninguém fique me colocando mais pra baixo ainda porque a vida já se encarrega disso normalmente.
Tem horas que me sinto assim.
Antes eu tinha amigos(as) da minha idade, que compartilhavam das mesmas experiências que eu. Passávamos pelas mesmas coisas, vivíamos as mesmas rotinas no dia-a-dia e tínhamos afinidade e o que conversar. Mas, depois que entrei na faculdade me senti muito mais isolada do que antes.
Todos com que eu convivo têm filhos, são casados e mais velhos que eu. Claro que eles conversam sobre o que vivem, sobre as crianças, sobre a casa, sobre a família, sobre seus netos... E eu me sinto deixada de lado. Não tenho culpa de não ser mãe, de não ter pai e de não ter uma vida igual a deles.
Além de estar odiando o curso, cada vez me sinto mais sozinha. Pelo menos não tive mais recaídas porque minha mãe voltou pra casa. Mesmo assim, me falta coragem de falar como me sinto porque não tem mais ninguém que me entenda. A maioria deles só me julga, sem procurar entender meus motivos. Por isso tenho me afastado cada dia mais dessas pessoas que se acham superiores só porque têm filhos eu não, porque têm marido e eu não, porque são mais velhas e eu não... enfim, não preciso que mais ninguém fique me colocando mais pra baixo ainda porque a vida já se encarrega disso normalmente.
Hoje
Hoje eu chorei. Chorei muito.
Não apenas porque perdi meu pai, mas por tudo o que eu vi, ouvi e senti hoje.
Meu jeito insensível, grossa às vezes e minha expressão séria é apenas uma máscara. Eu tenho sentimentos também, sou feita deles.
A maneira como fui criada me fez ser assim. Eu não podia nunca colocar pra fora o que sentia. Meu pai sempre dizia que não queria que eu tivesse filhos, porque ele sabia que eu mudaria e me tornaria uma pessoa mais sensível e sentimento era inadmissível para ele.
Finjo até não me importar com determinadas coisas, mas fico me queimando por dentro.
Sinto falta de ser compreendida, de ser querida. Sinto falta de me amar.
Hoje chorei no ônibus discretamente. Isso sempre acontece quando me sinto só no meio de um monte de gente.
Hoje também me disseram que tenho tudo para ser feliz. Realmente tenho. Nada me falta. Mas, o que eu mais queria eu não posso ter.
E por isso muitas vezes me sinto sem saída. Talvez eu tenha desperdiçado as oportunidades que eu tive. Talvez eu tenha deixado de demonstrar o que realmente sentia. Embora eu não me sinta culpada ou arrependida de nada.
Eu queria sair daqui, ir embora dessa casa que me traz lembranças horríveis. Memória de coisas que ouvi sem querer ouvir, de coisas que senti e que não voltam mais, de lágrimas que eu derramei no sofá, na cama, na mesa e principalmente debaixo do chuveiro. Nesta casa eu senti raiva, amor, ciúmes, ódio, remorso, cansaço, decepções, saudades...
O pior não é apenas sentir um vazio dentro de si. O pior é aguentar a falsidade de uns e outros. Uma criatura que saiu da minha vida me ligou hoje para me dar os pêsames e fazer seu "marketing pessoal". Alguém que me tratou com grosseria no passado e que não existe mais no meu mundo.
Posso até transparecer que não sinto nada, mas meu pai tem feito muita falta, principalmente quando não sei o que fazer.
Não apenas porque perdi meu pai, mas por tudo o que eu vi, ouvi e senti hoje.
Meu jeito insensível, grossa às vezes e minha expressão séria é apenas uma máscara. Eu tenho sentimentos também, sou feita deles.
A maneira como fui criada me fez ser assim. Eu não podia nunca colocar pra fora o que sentia. Meu pai sempre dizia que não queria que eu tivesse filhos, porque ele sabia que eu mudaria e me tornaria uma pessoa mais sensível e sentimento era inadmissível para ele.
Finjo até não me importar com determinadas coisas, mas fico me queimando por dentro.
Sinto falta de ser compreendida, de ser querida. Sinto falta de me amar.
Hoje chorei no ônibus discretamente. Isso sempre acontece quando me sinto só no meio de um monte de gente.
Hoje também me disseram que tenho tudo para ser feliz. Realmente tenho. Nada me falta. Mas, o que eu mais queria eu não posso ter.
E por isso muitas vezes me sinto sem saída. Talvez eu tenha desperdiçado as oportunidades que eu tive. Talvez eu tenha deixado de demonstrar o que realmente sentia. Embora eu não me sinta culpada ou arrependida de nada.
Eu queria sair daqui, ir embora dessa casa que me traz lembranças horríveis. Memória de coisas que ouvi sem querer ouvir, de coisas que senti e que não voltam mais, de lágrimas que eu derramei no sofá, na cama, na mesa e principalmente debaixo do chuveiro. Nesta casa eu senti raiva, amor, ciúmes, ódio, remorso, cansaço, decepções, saudades...
O pior não é apenas sentir um vazio dentro de si. O pior é aguentar a falsidade de uns e outros. Uma criatura que saiu da minha vida me ligou hoje para me dar os pêsames e fazer seu "marketing pessoal". Alguém que me tratou com grosseria no passado e que não existe mais no meu mundo.
Posso até transparecer que não sinto nada, mas meu pai tem feito muita falta, principalmente quando não sei o que fazer.
quarta-feira, 10 de abril de 2013
Eles Não Precisam Acreditar
Hoje tive uma grande prova do que as pessoas esperam de mim: ESPERAM QUE EU NÃO CONQUISTE NADA.
Elas não acreditam que eu posso ser uma boa profissional, que eu posso ser uma boa mãe, uma boa esposa, nem mesmo que eu possa aprender algo novo ou terminar de tirar minha habilitação.
Acreditam que eu nunca vou ser nada. Sempre pensaram isso, sempre tentaram me fazer ficar embaixo de seus pés, me diminuindo, me obrigando a aceitar o que pensam.
Apenas uma pessoa que eu conheci me fazia pensar diferente, alguém que ACREDITOU em mim, mesmo tendo todos os defeitos, mas me fazia pensar em mim mesma acima de qualquer outra coisa. Esse alguém foi MEU PAI. Apesar de sermos distantes um do outro, ele sempre me dizia algo que me levantava quando alguém tentava me deixar desacreditada.
Por isso eu deixei de esperar que os outros acreditem em mim, e comecei a tomar atitudes. Porque o que eu já fiz pelos outros, posso fazer muito mais por mim mesma.
Eles não precisam acreditar, precisam tentar estar vivos para que possam ver quem eu sou, de onde eu vim e aonde irei chegar.
Elas não acreditam que eu posso ser uma boa profissional, que eu posso ser uma boa mãe, uma boa esposa, nem mesmo que eu possa aprender algo novo ou terminar de tirar minha habilitação.
Acreditam que eu nunca vou ser nada. Sempre pensaram isso, sempre tentaram me fazer ficar embaixo de seus pés, me diminuindo, me obrigando a aceitar o que pensam.
Apenas uma pessoa que eu conheci me fazia pensar diferente, alguém que ACREDITOU em mim, mesmo tendo todos os defeitos, mas me fazia pensar em mim mesma acima de qualquer outra coisa. Esse alguém foi MEU PAI. Apesar de sermos distantes um do outro, ele sempre me dizia algo que me levantava quando alguém tentava me deixar desacreditada.
Por isso eu deixei de esperar que os outros acreditem em mim, e comecei a tomar atitudes. Porque o que eu já fiz pelos outros, posso fazer muito mais por mim mesma.
Eles não precisam acreditar, precisam tentar estar vivos para que possam ver quem eu sou, de onde eu vim e aonde irei chegar.
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