Minha casa está vazia. E nem eu nem minha mãe aguentamos mais ficar aqui.
Tudo traz lembranças - o perfume com cheiro de bebê, as cores dos móveis, o computador dele desligado, as almofadas do sofá, o carro na garagem, os quadros nas paredes, o retrato enorme com a foto dele, as roupas guardadas, as caixas de remédios, o tapete da sala e até os celulares.
Mas, o que mais me impressiona é a capacidade de organização dele quando soube que morreria. Nem acredito ainda que não chorei no enterro e nem quando eu estava no necrotério. Também não chorei quando abri o saco em que estava o corpo dele.
Chorei no dia seguinte quando tudo aquilo acabou.
Ele sempre dizia: "Não se deixe levar pelos sentimentos. Jamais demonstre que está triste, as pessoas não precisam saber o que você sente".
Em parte ele até tinha razão.
Esses dias não têm sido fáceis para mim. Cada dia me sinto mais e mais triste. Cansada, iludida, decepcionada, excluída e sozinha.
A culpa não é das pessoas, talvez seja minha por ter deixado meu coração ficar doente.
Difícil é sentir na pele o que a alma sente dentro da gente. Quando diziam que depressão e tristeza profunda trazem doenças para o corpo físico eu não acreditava, até acontecer comigo. Quando choro muito e começo a ficar enjoada, já entendo que preciso parar.
Eu trocaria tudo o que eu tenho para ter uma família. Até pensei que fosse ter uma, mas talvez o destino não queira me presentear como eu gostaria. Eu tento dormir para tentar esquecer os problemas, mas sonho com eles.
Por estar misturando as coisas, sentindo a partida dele e triste por estar isolada, acabo magoando sem querer as pessoas que eu mais amo. Isso dói mais em mim do que nelas.
E ninguém imagina que eu também sinto dores.