Hoje eu chorei. Chorei muito.
Não apenas porque perdi meu pai, mas por tudo o que eu vi, ouvi e senti hoje.
Meu jeito insensível, grossa às vezes e minha expressão séria é apenas uma máscara. Eu tenho sentimentos também, sou feita deles.
A maneira como fui criada me fez ser assim. Eu não podia nunca colocar pra fora o que sentia. Meu pai sempre dizia que não queria que eu tivesse filhos, porque ele sabia que eu mudaria e me tornaria uma pessoa mais sensível e sentimento era inadmissível para ele.
Finjo até não me importar com determinadas coisas, mas fico me queimando por dentro.
Sinto falta de ser compreendida, de ser querida. Sinto falta de me amar.
Hoje chorei no ônibus discretamente. Isso sempre acontece quando me sinto só no meio de um monte de gente.
Hoje também me disseram que tenho tudo para ser feliz. Realmente tenho. Nada me falta. Mas, o que eu mais queria eu não posso ter.
E por isso muitas vezes me sinto sem saída. Talvez eu tenha desperdiçado as oportunidades que eu tive. Talvez eu tenha deixado de demonstrar o que realmente sentia. Embora eu não me sinta culpada ou arrependida de nada.
Eu queria sair daqui, ir embora dessa casa que me traz lembranças horríveis. Memória de coisas que ouvi sem querer ouvir, de coisas que senti e que não voltam mais, de lágrimas que eu derramei no sofá, na cama, na mesa e principalmente debaixo do chuveiro. Nesta casa eu senti raiva, amor, ciúmes, ódio, remorso, cansaço, decepções, saudades...
O pior não é apenas sentir um vazio dentro de si. O pior é aguentar a falsidade de uns e outros. Uma criatura que saiu da minha vida me ligou hoje para me dar os pêsames e fazer seu "marketing pessoal". Alguém que me tratou com grosseria no passado e que não existe mais no meu mundo.
Posso até transparecer que não sinto nada, mas meu pai tem feito muita falta, principalmente quando não sei o que fazer.
